segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

CODINOME ABRAXAS # 09 – A IDEIA – REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA (PORTUGAL)

 

∞ editorial | Os pares insuspeitáveis e os desafios da amizade

 


 01 | No editorial de uma edição de 2022, da revista A Ideia, lemos: A revista A Ideia é uma revista crítica do atual modo de vida, assente na especulação financeira, no sistema da tecnociência, na gestão eli­tista, na indústria massiva, na desagregação dos elos de solidariedade, na anulação das subjetividades e na destrui­ção imparável da vida física do planeta. Mínimo que seja, e assim é com certeza, a revista pretende dar um contributo no domínio das ideias e das práticas sensíveis para um novo paradigma social, centrado nas necessidades sociais, subjeti­vas e ecológicas e que se possa apresentar como um modelo de vida duradouro para a Ter­ra e digno para todos os seres. A revista não acredita que o atual sistema partidário, sujeito a outras pressões, vindas da indústria, do aparelho tecnocientífico e da corporação militar, tenha condições para cumprir este desafio. O dilema que vivemos hoje é pois claro: ou inventamos um novo modo de vida social, que terá necessariamente de ser maximamente democrático, já que qualquer gestão ditatorial do complexo sistema técnico de hoje só agravará os seus problemas, e assim se vê no modelo chinês, ou co­lapsamos. A revista afirma outrossim a concepção plural que tem na área de ideias onde se insere. O pensamento libertário não é um bloco monolítico e coerente. O melhor desta tradição de pensa­mento é o seu pluralismo, as suas correntes internas diver­sifica­das, as suas tensões, os seus debates, as suas diferen­ças e até as suas contradições. Somos, pois, adversos a esta­belecer um cânone rígido do pensa­mento libertário, uma doutrina que exclua tudo o que lhe seja distinto, e advogamos o diálogo aberto entre corren­tes, na procura prática de uma cultura cada vez mais rica, esclarecida e diversa. Não existe uma cultura libertária; existem várias – e todas elas necessárias. Um fato ganha mais realidade e valor – o mesmo vale dizer para as ideias – quando é submetido à observa­ção de vários indivíduos posicionados em lugares distintos e que cruzam depois entre si os seus pontos de vista. Não há como não concordar integralmente com o que acabamos de ler. Acrescente-se ainda que a revista é a maior referência internacional no que diz respeito à formação e polêmicas do Surrealismo em Portugal. Seu diretor, António Cândido Franco, ele mesmo é um estudioso do tema e conta com uma bibliografia relevante. A seu lado, nesta edição em homenagem à revista A Ideia, o brasileiro Firmino Saldanha (1906-1985), um pintor cubista de natureza libertária, que, arquiteto de formação, em 1957, foi escolhido, ao lado de Candido Portinari, para concorrer aos prêmios Guggenheim e participar da exposição realizada em Paris no mesmo ano. Artista pouco afeito aos palcos, dotado de um profundo senso de humor, pai do irrequieto Zuca Sardan, Firmino acabou sendo quase de todo esquecido, de modo que muito nos satisfaz trazê-lo de volta à cena artística, como artista convidado da presente edição da Agulha Revista de Cultura.

 


 02 | En el editorial de una edición de 2022 de la revista A Ideia, leemos: La revista A Ideia es una revista crítica con el modo de vida actual, basado en la especulación financiera, el sistema tecnocientífico, la gestión elitista, la industria masiva, la desintegración de los lazos de solidaridad, la anulación de las subjetividades y la destrucción imparable de la vida física del planeta. Por mínimo que sea, y sin duda lo es, la revista pretende aportar su granito de arena en el ámbito de las ideas y las prácticas sensibles para un nuevo paradigma social, centrado en las necesidades sociales, subjetivas y ecológicas, y que pueda presentarse como un modelo de vida duradero para la Tierra y digno para todos los seres. La revista no cree que el actual sistema partidista, sujeto a otras presiones procedentes de la industria, el aparato tecnocientífico y la corporación militar, esté en condiciones de afrontar este reto. El dilema que vivimos hoy es, por tanto, claro: o inventamos una nueva forma de vida social, que necesariamente tendrá que ser lo más democrática posible, ya que cualquier gestión dictatorial del complejo sistema técnico actual solo agravará sus problemas, como se ve en el modelo chino, o colapsamos. La revista afirma asimismo la concepción plural que tiene en el ámbito de las ideas en el que se inscribe. El pensamiento libertario no es un bloque monolítico y coherente. Lo mejor de esta tradición de pensamiento es su pluralismo, sus corrientes internas diversificadas, sus tensiones, sus debates, sus diferencias e incluso sus contradicciones. Por lo tanto, nos oponemos a establecer un canon rígido del pensamiento libertario, una doctrina que excluya todo lo que sea distinto, y abogamos por el diálogo abierto entre corrientes, en la búsqueda práctica de una cultura cada vez más rica, esclarecida y diversa. No existe una cultura libertaria; existen varias, y todas ellas son necesarias. Un hecho gana más realidad y valor —lo mismo puede decirse de las ideas— cuando se somete a la observación de varios individuos situados en lugares distintos y que luego cruzan entre sí sus puntos de vista. No hay cómo no estar totalmente de acuerdo con lo que acabamos de leer. Cabe añadir que la revista es la mayor referencia internacional en lo que respecta a la formación y las polémicas del surrealismo en Portugal. Su director, António Cândido Franco, es él mismo un estudioso del tema y cuenta con una bibliografía relevante. A su lado, en esta edición en homenaje a la revista A Ideia, se encuentra el brasileño Firmino Saldanha (1906-1985), un pintor cubista de naturaleza libertaria que, arquitecto de formación, fue elegido en 1957, junto con Candido Portinari, para competir por los premios Guggenheim y participar en la exposición celebrada en París ese mismo año. Artista poco acostumbrado a los escenarios, dotado de un profundo sentido del humor, padre del inquieto Zuca Sardan, Firmino acabó siendo casi totalmente olvidado, por lo que nos complace enormemente traerlo de vuelta a la escena artística, como artista invitado de la presente edición de Agulha Revista de Cultura.

 


 03 | In the editorial of a 2022 issue of A Ideia magazine, we read: A Ideia magazine is critical of the current way of life, based on financial speculation, the techno-scientific system, elitist management, mass industry, the disintegration of bonds of solidarity, the nullification of subjectivities, and the unstoppable destruction of the planet's physical life. However small it may be, and it certainly is, the magazine aims to do its bit in the field of ideas and practices that are sensitive to a new social paradigm, focused on social, subjective, and ecological needs, and which can be presented as a sustainable model of life for the Earth and dignified for all beings. The magazine does not believe that the current partisan system, subject to other pressures from industry, the techno-scientific apparatus, and the military-industrial complex, is in a position to meet this challenge. The dilemma we face today is therefore clear: either we invent a new form of social life, which will necessarily have to be as democratic as possible, since any dictatorial management of the current complex technical system will only aggravate its problems, as can be seen in the Chinese model, or we collapse. The magazine also affirms the pluralistic conception it has in the realm of ideas in which it operates. Libertarian thought is not a monolithic and coherent bloc. The best thing about this tradition of thought is its pluralism, its diverse internal currents, its tensions, its debates, its differences, and even its contradictions. Therefore, we oppose the establishment of a rigid canon of libertarian thought, a doctrine that excludes everything that is different, and we advocate open dialogue between currents, in the practical search for an increasingly rich, enlightened, and diverse culture. There is no single libertarian culture; there are several, and all of them are necessary. A fact gains more reality and value—the same can be said of ideas—when it is subjected to the observation of several individuals located in different places who then exchange their points of view. It is impossible not to agree wholeheartedly with what we have just read. It should be added that the magazine is the leading international reference on the formation and controversies of surrealism in Portugal. Its director, António Cândido Franco, is himself a scholar of the subject and has a relevant bibliography. Alongside him, in this edition paying tribute to the magazine A Ideia, is the Brazilian Firmino Saldanha (1906-1985), a cubist painter with a libertarian streak who, trained as an architect, was chosen in 1957, along with Candido Portinari, to compete for the Guggenheim prizes and participate in the exhibition held in Paris that same year. An artist unaccustomed to the limelight, gifted with a deep sense of humor, and father of the restless Zuca Sardan, Firmino ended up being almost completely forgotten, which is why we are delighted to bring him back to the art scene as a guest artist in this edition of Agulha Revista de Cultura. 

Os Editores


∞ índice


ALFREDO MARGARIDO | Surrealismo negro

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | Breve nota sobre o combate cultural do nosso tempo surrealismo e crítica situacionista

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | Breve Notícia sobre Prémios Literários

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | Manuel de Castro – Os versos de gelo

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | O grupo do Café Gelo: do princípio ao fim

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FLORIANO MARTINS | António Cândido Franco, uma ideia com 50 anos de idade

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JORGE LEANDRO ROSA | Novíssima Simone Weil – o ativismo e os trabalhos da alma

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MANUELA PARREIRA DA SILVA | Uma biografia de Fernando Pessoa

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MARIA ESTELA GUEDES | Sobre Manuel de Castro – Um texto de Herberto Helder

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PENELOPE ROSEMONT | Diane di Prima (1934-2020)

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Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 09 – A IDEIA  REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA (PORTUGAL)

Artista convidado:  Firmino Saldanha(Brasil, 1906-1985)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

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PENELOPE ROSEMONT | Diane di Prima (1934-2020)

 


O meu encontro com Diane di Prima aconteceu na Primavera de 2000 numa leitura de poesia no Columbia College. Com o auditório cheio, tive de me sentar nas filas de trás. Diane estava sentada na frente, vestida de preto, com uma bela e cintilante mantilha passada pelos ombros. O seu cabelo era longo, encaracolado e emoldurava o seu rosto de forma perfeita. Com 66 anos era bela e irradiava tranquilidade. O modo como ela disse as suas palavras e o que afirmou foram o bastante para criar em todos nós um encantamento. Cada um ficou quieto, sustendo a respiração, desejoso de se deixar levar nas asas das suas palavras.

Diane di Prima levava a poesia a sério. O poeta como vate; o poeta como visionário; o poeta como amante; o poeta como sangue vital do mundo – e a poesia como libertação da mente. Ela escreveu sem parar, levantando-se cedo para não ser interrompida, guardando aquilo que era necessário e burilando cada frase. Acrescentava e revia muitas vezes o seu trabalho. Tenho para comigo que só os surrealistas levam a poesia a sério.

Nesse encontro falámos bastante e depois ela perguntou-me quando nos podíamos voltar a ver. Não tardou que viesse passar alguns meses em Chicago! Isso permitiu-me apresentar-lhe Paul e Beth Garon, Joel Wiliams, Tamara Smith e todos os outros que faziam parte do Grupo Surrealista de Chicago. Ela juntou-se a nós para o nosso encontro semanal no restaurante Gulliver na Rua Howard. O Gulliver era um tesouro com compartimentos e mesas – candelabros Tiffany, espelhos enquadrados em molduras doiradas, Vénus esculpidas em mármore em grande profusão. Uma vez estivemos lá com Michael Löwy e ele cumprimentou assim o dono: “Não há nada de parecido com isto em Paris.” O dono, por sua vez, replicou: “Não há nada de semelhante em todo o mundo.”

Algumas vezes fui ao apartamento de Diane perto da Rua Rush para conversarmos. Gostávamos de falar sobre a estadia de Emma Goldman em Chicago e ainda sobre o grupo Free Society. Era uma boa amiga. No ano passado, quando lhe perguntei se se sentia mais próxima dos beats ou dos surrealistas, não hesitou em responder-me: “Sem dúvida, dos surrealistas.” Ela pertence ao meu livro Surrealist Women – an international anthology (1998), mas quando o publiquei, ela era já muito conhecida e o meu objectivo nesse livro era trazer para a luz as mulheres surrealistas esquecidas.

Escritora e mulher entre os poetas da beat, Diane di Prima nasceu em Brooklin, em 1934. O seu avô, Domenico Mallozi, um emigrante italiano, que vivia com a família, teve grande influência sobre ela. Anarquista e alfaiate, era amigo próximo de Carlo Tresca que fazia parte da central sindical IWW e se tornou um eminente organizador de greves. Como anarquista, Tresca editou vários jornais. Mallozi escreveu para um deles, Il Martello, um jornal fortemente anti-fascista, anti-estalinista e contra o crime organizado. Era ainda um orador e um conversador nato e a sua neta cresceu a ouvir as histórias de Sacco & Vanzetti, de Lawrence Strike, de Goldman e do trágico homicídio de Tresca. O seu avô incitou-a a ler Dante, Giordano Bruno e Maquiavel. Boa aluna, ela passou pela Hunter High School e pelo Swarthmore College, onde pensou tirar uma licenciatura em Física. Sentindo-se vocacionada para desenvolver a sua escrita, abandonou a academia e instalou-se num apartamento da East Village em Nova Iorque. Trabalhou como empregada num gabinete de Wall Street, num laboratório de electrónica da Universidade de Columbia, em lojas de comércio e posou ainda nua como modelo artístico, onde recebia três dólares à hora, tarifa superior à de qualquer outro emprego que teve.


Com 19 anos correspondeu-se epistolarmente com o poeta Kenneth Patchen, que publicava na revista Liberation, fundada por Dave Dellinger, Dorothy Day e A. J. Muste. Assinale-se que o livro de Dellinger, Revolucionary Non-Violence, foi um dos textos marcantes para os revolucionários dos anos 60. Em 1956, com 22 anos, vivendo a vida boémia da baixa de Manhattan, Di Prima encontrou Jack Kerouac e Allen Ginsberg. O controverso poema de Ginsberg, Howl, acabara de ser publicado por Ferlinghetti na chancela City Lights Books. O seu primeiro livro de poemas, This Kind of Birds Flies Backwards, foi publicado em 1958 na Totem Press de Hettie e LeRoi Jones (Amiri Baraka), que também publicou Ginsberg e Kerouac. Fazendo parte da “revolução da mimeografia” e determinada em ter os seus próprios meios de impressão, editou a revista Floating Bear com Jones entre 1961 e 1963. O FBI prendeu-os e acusou-os de obs­ce­ni­dade por causa de uma peça de William Burroughs. Como consequência o número 9 da publicação foi confiscado e proibido de circular. Em 1961,Diane di Prima iniciou o grupo New York Poets Theatre em ligação estreita com o Living Theatre de Judith Malina e Julian Beck, cujo objectivo era a “bela e não violenta revolução anarquista”. Em 1964 fundou Poets Press e publicou livros de Audre Lorde, David Henderson e Herbert Huncke. Trocou em 1966 a cidade de Nova Iorque pelas montanhas de Catskill, no interior norte do Estado, embora ainda tenha passado algum tempo em Millbrook, Nova Iorque, na comunidade de Timothy Leary.

Diane di Prima e uma caravana de amigos deixou Nova Iorque em 1967 em direcção à Costa Oeste. Viajavam num camião com crianças e cães. Pararam em Chicago para visitar a livraria Solidarity e para fazer leituras em escolas, galerias e bares. Com os filhos a cargo e com necessidade de dinheiro, apelou em 1968 para Maurice Girodias, de modo a que os livros banidos nos Estados Unidos devido ao seu conteúdo sexual explícito pudessem ser publicados em Paris. Escreveu Memoirs of a Beatnik que se vendeu muito bem e a tornou a mulher mais célebre da geração Beat. As leis da censura foram contestadas na Tribunal Supremo dos Estados Unidos pelo procurador de Chicago Elmer Gertz quando em 1964 apelou para o caso do livro de Henry Miller, Tropic of Cancer.


O seu grande trabalho poético, Revolucionary Letters, ganhou corpo pouco a pouco. Ela começou por ler pequenas peças no exterior, em manifestações pela paz com os Diggers, cuja principal preocupação era criar uma sociedade livre... livre das ditaduras do dinheiro e do capitalismo. Depois, começou por enviar regularmente as suas cartas para a Liberation News Service, uma central alternativa de notícias, que as distribuía por mais de 200 jornais contraculturais. A sua voz era ouvida cada vez mais longe. Revolucionary Letters foi assim sofrendo um processo de transformação, que passou pelas palavras recitadas nas manifestações, pela sua reprodução em jornais, pela edição mimeografada de um livro e por fim na recente edição de grande tiragem da City Lights. Ouvi várias vezes a sua leitura pessoal destes textos na Feira Anarquista do Livro de San Francisco. Quando ela por razões de saúde não pôde estar presente, aconteceu mesmo eu própria lê-los por ela. Ron Sakolsky chamou as “cartas revolucionárias” de Diane di Prima “fractais cintilantes de luz revolucionária que chamam por nós numa voz pessoal que é  também desafiadora, revoltada, ciosa, zangada, forte, questionadora e filosó­fica.” Dentro da grande literatura criada nos anos 60, o seu livro Revolutionary Letters é sem dúvida um dos mais proeminentes. No jornal anarquista Fifth Estate, Peter Lamborn Wilson chamou à sua autora “a primeira poeta anarco-hermética dos Estados Unidos (e provavelmente do mundo).”

Di Prima foi uma voz poderosa a favor das mulheres. A sua mãe era uma mulher ilustrada, que era filha de um anarquista e foi professora. Foi ela que lhe disse que não confiasse nos homens mas apenas em si própria. Diane teve cinco filhos que muito amou, cuidando deles e encaminhando-os para “questionarem a autoridade”. O seu livro Loba, constituído por um único e longo poema, foi editado em 1973. Loba é o seu alter-ego que explora experiências na vida selvagem. As profundezas da autora conseguem evocar o espírito animal e a natureza bravia e tudo isso veio ao de cima no momento mesmo em que a consciência social da importância da vida selvagem estava a crescer. Numa visita a Chicago ela fez um recital de poesia no estúdio do companheiro da IWW Carlos Cortez – poeta também ele. Chegámos cedo para conversar com Carlos e eu fiquei impressionada com a afinidade do pensamento de ambos. Diane gostou muito dos trabalhos em madeira de Carlos, que evocavam Joe Hill e Lucy Parsons. Poetisa, escritora e revolucionária, a voz corajosa e independente de Diane di Prima ainda hoje ressoa e nos toca. Falou, pensou e escreveu mais de meia centena de livros. A maioria foram publicados pela imprensa alternativa – isto pelo menos até ao livro Reccolections of my Life as a Woman (1993). A relação amorosa mais duradoura que teve foi com Sheppard Powell, artista e cineasta. Shepp documentou cinematograficamente intervenções faladas dela e ela dedicou-lhe “Pieces of a Song”.

Diane estava sempre a ler, escrever, pensar, agir. Parecia estar sempre a convidar-nos para nos juntarmos a ela e fazermos parte da grande aventura da vida. As suas primeiras palavras eram quase sempre: “Vamos embora!” A que se seguia: “Ver o mar”, “ouvir jazz”, “ao bairro japonês”, “à loja dos chineses”. Foi ela que me levou pela primeira vez a ver o oceano Pacífico. Para uma surrealista como eu, encontrar o grande e antigo oceano de Lautréamont foi um grande momento. Gritei então em inglês e em francês – “Eu te saúdo!” Até a loja dos chineses na sua companhia não chegava a ser uma desilusão.


Em 2003, Diane iniciou um manifesto surrealista: “A Poesia Conta – sobre a perseguição mediática a Amiri Baraka”. Defendendo Baraka, disse aí: “ A perseguição a Amiri Baraka é para sufocar a poesia, suprimir o espírito crítico, silenciar a dissidência. É para impor a censura e a coerção, a conformidade e a miséria – é a negação da liberdade.” Juntando-se ao nome de Diane, o manifesto contou com muitas outras assinaturas, entre elas a do Grupo Surrealista de Chicago.

Quem era Diane di Prima? Se o leitor quer saber, leia por favor os trabalhos dela e lembre-se dos antigos revolucionários que a inspiraram. Leia o poema dela “Memorial Day”, escrito em 2003. Foi escrito como resposta subversiva a um patriótico colunista do jornal Chicago Tribune – “Dear Abby”. Começa com a seguinte introdução: “Hoje é o Memorial Day. Dedica algum tempo a lembrar aqueles bravos que deram as suas vidas pela liberdade.” E segue assim: “Dear Abby, lembra Sacco & Vanzetti, lembra Haymarket, lembra John Brown, lembra a revolta dos escravos, lembra Malcolm X.”



NOTA

Texto original publicado na revista The Oystercatcher (nº 18, 2021) com o título “Diane Di Prima: The She-Woolf – as anarchist poet/surrealist provocateur”.



PENELOPE ROSEMONT
(Estados Unidos, 1942) is a surrealist painter, writer, photographer, and collagist. In 1965, she and her husband Franklin Rosemont co-founded the Chicago Surrealist Group, following a trip to Paris and meeting with French surrealist André Breton. The group, known for its radical politics and revolutionary aesthetics, went on to hold numerous exhibitions at the Gallery Bugs Bunny and the Gallery Black Swan. Penelope edited Surrealist Women: An International Anthology (University of Texas Press, 1998) and is the author of Surrealist Experiences: 1001 Dawns, 221 Midnights (Black Swan Press, 2000) as well as several books of poetry. In the course of our conversation at the Heartland Café (which has also exhibited the Chicago Surrealist Group), another Chicago (now Madison) surrealist, Lester Doré, stopped by. We began by talking about the short-lived Gallery Bugs Bunny.




FIRMINO SALDANHA (Brasil, 1906-1985). Pintor, arquiteto. Cursou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes/Enba, em 1931, no Rio de Janeiro. Na década de 1940, inicia-se como autodidata em pintura. Em 1957, é escolhido, juntamente com Candido Portinari, para concorrer aos prêmios Guggenheim e participar da exposição realizada em Paris. Além disso, integra a comissão encarregada de projetar a Cidade Universitária, no Rio de Janeiro, ao lado de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy; atua como presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil/IAB; e realiza, dentre outros, o mural do Banco Nacional – Palácio do Planalto, em Brasília. A seu respeito disse Flávio de Aquino: Nas telas de Saldanha sentimos formas, linhas e cores se movimentando, criando contraste, se ajustando ou se opondo umas às outras, como se nascessem do mesmo ritmo, obedientes à composição geral, com seus elementos fortemente ligados através de uma coerência formal, de onde emerge a mensagem emocional com limpidez e transparência. Por sua vez, observou Joaquim Tenreiro que Firmino foi um pintor filiado aos princípios plásticos de Braque. Sentiu-lhe intensamente a influência, especialmente no formalismo, na esquematização, na composição da obra. Assim foi durante algum tempo, e nisto está uma força e uma constância, que fazem Saldanha trabalhar continuamente até chegar à atual fase, já livre daquela influência, evidenciando sempre, porém, uma forte consciência de pintor. Firmino Saldanha é o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 09 – A IDEIA  REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA (PORTUGAL)

Artista convidado:  Firmino Saldanha(Brasil, 1906-1985)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

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MARIA ESTELA GUEDES | Sobre Manuel de Castro – Um texto de Herberto Helder

 


Manuel de Castro bebe o seu bagaço, / João Rodrigues faz desenho à pena

e Mário Cesariny põe em cena / a sua luz no espaço.

 

ANTÓNIO BARAHONA, Memória do Café Gelo (1)

 

O Manuel de Castro tinha a lucidez do demónio, a crueldade (para os outros e para si mesmo) de um carnívoro e a secreta fragilidade de alguém que anda perdido pelo escuro. Os poemas dele mostram, a quem sabe ler, toda esta movimentação interior. isto escreveu Herberto Helder, no jornal (revista) Notícia (2) quando soube da morte do seu amigo, em artigo cujo título recupera o início de um poema de Manuel de Castro em Paralelo W: Eu que/ apareci acidentalmente vivo/ odorizado de flores a uma certa distância/ não me importo.

Neste encontro de palavras entre ambos, Herberto Helder revela o tema dominante da obra toda do autor de Paralelo W e de A Estrela rutilante – a morte. Em Manuel de Castro, entretanto, a morte não é só uma palavra, uma só ânsia nem nenhum medo. De um lado, no seu tão iluminante lado hermético, é a transmutação anterior à reencarnação ou ressurreição. Tema de inspiração oriental, ligado às flores, aos barcos e ao elemento líquido. Mauro Jorge Santos mantém que em Paralelo W há indícios de dupla iniciação: a iniciação da busca pelo alheio nas jornadas marítimas, e a busca por si mesmo na iniciação nos cultos de Ísis (3). E aqui perto, neste mesmo volume, António Cândido Franco refere que Manuel de Castro escolheu Camilo Pessanha como mais próximo progenitor poético. Realmente, o ritual chinês da largada de barcos com flores e lanternas iluminadas, como homenagem noturna aos mortos, impregna a obra de ambos, tal como ambos revelam uma hipersensibilidade feminina que chama a água das profundidades da psique como sua matéria-prima. De outra parte, tal como em Camilo Pessanha, a morte vem acompanhada pela materialidade dos corpos putrefatos, seus odores a cadaverina, e pela panóplia de assuntos associados: funerais, círios, sepulturas, muitos cadáveres e muitas flores mais. Aliás, no livro de Manuel de Castro recentemente publicado, Bonsoir, Madame (e esta Senhora é justamente a morte), o organizador – António Barahona, segundo creio – juntou, em mais dois livros, poemas publicados dispersamente, um deles intitulado Chuva no Dia de Finados. A grande companheira do poeta deve ter sido esta.

Herberto e Manuel tinham convivido estreitamente durante anos, em duas ocasiões morado nas mesmas casas, o que não fora fácil, relata ainda o primeiro. Relação violenta, em violentos tempos de repressão e censura. Tempos carnívoros, para usar termo corrente entre os poetas desta geração, a do Café Gelo, promotores de comportamentos autofágicos, de desespero, como aquele de que Herberto dá conta em Manuel de Castro, o de se divertir mordendo as suas próprias mãos. Declarando-se incapaz de ser sentimental, acrescenta: Tratávamo-nos bastante mal, porque não era de suavidade e calma o que tínhamos para dizer e fazer entre nós. Mas éramos realmente amigos, sabíamos um do outro, possuíamos a honestidade de não facilitar o que, por sua natureza, era difícil.

Tratar-se-iam mal, porém Herberto Helder tem sido justo com o amigo: além do texto que agora comento, publicado no Notícia, antologiou vários poemas dele em Edoi lelia doura. De resto, no mesmo número do Notícia, em homenagem, Herberto ainda reedita Hormonas para Sísifo – VII, um cadavre exquis ou jogo similar, em que entram, além de Manuel de Castro, João Fernandes e João Rodrigues, inquirindo e respondendo sem conhecimento das perguntas do interlocutor, numa pseudo-entrevista. Manuel de Castro mantinha, com João Fernandes, a rubrica Hormonas para Sísifo (4) no início dos anos sessenta, no Diário Ilustrado. Herberto Helder refere que Manuel de Castro ganhava com ela cento e cinquenta escudos por semana, que logo bebia no Café Gelo e arredores. Como Luiz Pacheco, Manuel de Castro cedera ao alcoolismo, que 31 acabou por o levar aos trinta e seis anos de idade com uma cirrose pancreática, lemos em Joana Emídio Marques. (5).

Em 1971, Herberto estava em Luanda, mas ia recebendo notícias dos amigos: o Gonçalo Duarte e o António Gancho enlouqueceram, o João Rodrigues, o Manuel d’Assumpção e o Pressler suicidaram-se, o Luiz Pacheco e o Manuel de Castro entram e saem dos hospitais para fazer e desfazer curas de desintoxicação alcoólica. Agora foi-me dito que, com o Manuel de Castro, já se poderia contar com um cadáver definitivo. Há bem uns seis ou sete anos que ele andava para morrer. Ressuscitava a cada passo. Anteontem, dia 12 de setembro, já não ressuscitou. Provavelmente, estava cansado de tanta ressurreição.


Os discursos da vida e da poesia fundem-se aqui e ali, para depois seguirem caminhos divergentes: ao contrário de Herberto, que lhe põe ponto final, ao garantir que a 12 de setembro o amigo já não ressuscitara, Manuel de Castro semeou os seus livros de símbolos de passagem, num entendimento de si mesmo como navio e da sua vida como viagem: pontes e arcos mostram que é possível atravessar o rio da matéria.

Além de Paralelo W e A estrela rutilante, informa Herberto que os familiares lhe tinham destruído pelo menos um livro já organizado, Escorpião, e diversos textos soltos. E que havia outras coisas dele por aí, algumas decerto irrecuperáveis porque as deixara pelos caminhos da França e da Alemanha, e também por alguns bares de Lisboa. Luiz Pacheco refere factos idênticos, em Os poetas sonegados (6), e aos livros publicados acrescenta Zona, com poemas anteriores a 1957, impresso, mas sem capa, donde não chegara a circular. António Cândido Franco, em e-mail, comenta que o autor desconsiderou esse livro por juvenilia. Luiz Pacheco diz que a viúva, Maria Natália Freire de Castro Cabrita, compilara tudo o que pudera. Esperava ele, Luiz Pacheco editor, que a obra completa de Manuel de Castro viesse a ser publicada; anexa, no final do artigo, uma carta do poeta a falar de dois livros, um que lhe sugere publique, e um romance ainda a meio: História para cavalinhos de circo o primeiro, e o meado com título Aventuras do capitão Batata. Oxalá os manuscritos tenham sobrevivido e ainda vejam a luz: para iluminação maior da sua obra, a avaliar pelos títulos, trata-se de obras para crianças de um poeta cujo maior drama não é a morte, sim o de ser poeta de uma infância que na vida não teve, por isso era justo que a tivesse em literatura.

Já findo este artigo, António Cândido enviou-me as “Três perguntas a Ricardo Ventura”, incluídas neste volume. De acordo com as informações prestadas, o espólio de Manuel de Castro inclui um maço constituído por um pequeno livro inédito, Histórias para cavalinhos de circo, que inclui quatro títulos: “Catarina, ou os erros da juventude, “La madre que te parió”, “O espadachim, o clown e o bastardo” e “Clélia Conti. Não se trata de literatura para crianças, mas mais provavelmente de uma criança, cuja publicação desejamos e aguardamos.

No meu livro A obra ao rubro de Herberto Helder (7) refiro o pormenor de, neste texto do Notícia, Herberto, que diz não ter biblioteca, e ter perdido os exemplares que o Manuel lhe oferecera dos seus dois livros, se lembrar do poema, primeiro de Paralelo W, em que lemos: todos os meus amigos são rosas brancas. Notam-se algumas coincidências lexicais ou mesmo temáticas entre os dois amigos, uma delas é essa proliferação de flores nos poemas. As rosas dominam os jardins herbertianos. São irrelevantes estas coincidências, porque lhes faltam sequência e consequências. Não passam de curiosidades, por isso menciono esta outra: a flecha junto ao canto. Em O amor em visita, aparece a expressão com uma flecha em meu flanco cantarei. Vejamos os últimos versos de Rosas, tranquilas rosas, de Manuel de Castro:

 

Aqui o tempo é longo.

Isolados em uma estranha terra.

Uma flecha canta

– uma flecha é esta música triste

que incandesce o sangue,

uma flecha atravessa simplesmente o espaço.

 


Mais além deste pormenor, numa visão ampla, direi que tendência comum em ambos é a teatralização da música, ela e os seus instrumentos estão presentes na poesia em abundância similar à das flores. Por isso, sim, completemos a frase em que aparecem os amigos-rosa, em Manuel de Castro: Todos os meus amigos são rosas brancas / todo o meu amor é ave lenta.

De modo algo enigmático, Herberto comenta: Num certo plano que urgia inquirir incansavelmente, encontrávamo-nos em situação de rosas brancas, mas não havia perdão entre nós. As rosas brancas simbolizam um perdão que paradoxalmente não existia na geração de poetas que as invocam? Eles eram puros, marginais à corrupção do seu tempo, mas implacáveis.

Os poetas sentem-se uns aos outros: António Cândido Franco fala dos versos de gelo de Manuel de Castro, e realmente existe frio de neve nas suas cidades desertas, onde não passa ninguém. Não é um gelo interior, sim exterior, por despovoamento humano das paisagens. Se personagens encontramos nos seus versos, são de deuses como Varuna e Ísis ou de figuras míticas como Eurídice. Também existe uma inesperada profissão de fé islâmica, que ergue na praça o Deus único, em: Allah é grande. Lê-se um poema semi-narrativo em Bonsoir, Madame, em que um homem de capa sobe as escadas de um templo, mas é de um defunto que se trata. Com uma ou outra exceção, o panorama geral é o do deserto, daí uma das percepções dos versos gelados.

Herberto Helder, em vez de gelo, comenta que os poemas de Manuel de Castro possuem uma doçura oculta perfeitamente envenenada pela raiva e pelo medo. Suponho que ele andava, desde o princípio, em busca de algo que, com todos os perigos, se pode chamar de paz. Mas não pertencia ao tipo de pessoas que encontra a paz na primeira, na segunda, ou na milésima esquina da terra. Havia momentos em que se divertia loucamente a dar dentadas nas suas próprias mãos. Existe quem não perceba destes divertimentos. O que unia o nosso grupo é que todos percebíamos de dentadas.

Irmanava-os o sofrimento. Dentadas do Poder, dentadas do Pai, como sugere António Cândido, e eu faria um excurso crítico a partir destes dados todos, acrescentados à informação chocante de Joana Emídio Marques, segundo a qual, em criança, o Manuel vira o pai espancar mortalmente a mãe, para declarar que a obra de Manuel de Castro nos deixa gelados a nós, leitores, não pelo que nela há, sim pelo que nela falta. E neste ponto, diferentemente de Herberto, com quem mantém alguns pontos de contacto, o que é irrelevante, Manuel distingue-se totalmente dele, o que me parece já muito interessante, por a diferença abrir rosáceas de luz no discurso hermético – as relações entre termos parentais são quase opostas num e noutro; a palavra mãe está absolutamente ausente dos dois livros publicados em vida por Manuel de Castro, Paralelo W e A estrela rutilante. Só aparece uma vez, que eu visse, em Bonsoir, Madame, num dos textos dispersos aqui reunidos, “Poema para uma hera”:

 

meu pai é o pássaro cavernícola

cujo olhar tem o sentido das bússolas subterrâneas

e minha mãe cravejada de diamantes

ali jaz candura

tão inútil como um jornal diário

definitiva e absurda como um crustáceo oco

 


Não vamos discutir o valor biográfico da colagem destes versos à infância real do poeta, tendo eu acabado de dizer que a presença do termo mãe em toda a obra é quase nula. É bem provável que ele esteja a criar pais imaginários e não a ver o seu retrato no espelho dos versos. E, no entanto, eu diria que existe uma mãe nos livros, e que ela é Manuel de Castro. Eis um assunto extraordinário, fundamentado apenas em duas circunstâncias opostas: a água e a noite de luar como imagens matriciais dominantes nos dois livros; de outra parte, a inexistência de termos referidos a membros da família. Salvo raríssimas exceções, dignas, portanto, de ser mencionadas, o léxico de Manuel de Castro carece das palavras mãe, irmã, irmão, pai, filho e filha alusivos ou não a um contexto de família. Vale a pena comparar com o caso de Herberto Helder, que ficou órfão de mãe em criança, no qual abundam não só os termos como as figuras de mãe e de irmãs. O pai tem expressão fraca, aparece sobretudo num dos contos de Os passos em volta, agora a presença de mãe é tão intensa que se multiplica na estranha expressão as mães.

Em Paralelo W, mais do que no segundo livro, o que reina é a infância, mas uma infância sem família, de total orfandade. É uma infância amputada, impedida de chegar ao seu termo e por isso de se prolongar naturalmente até à idade adulta, manifesta a paragem no modo como se apresentam brinquedos e jogos próprios: as efémeras bolas de sabão e o papagaio de papel que se ergue no céu, mas cujo fio parte. Manuel refere que não jogou ao arco, quando é tão importante na obra essa imagem, juntamente com a da ponte, ambas alusivas a passagem de um nível a outro nível. Infância que o poeta diz ser ele mesmo a interromper, em versos de caráter suicida: Tenho como certo que isto não resiste / que eu próprio hei-de quebrar o berço aos pedaços / o berço delicado onde matei um jovem / a fim de o ver sereno listrado de luar.

No último poema de Paralelo W, a imagem que o poeta dá de si mesmo é o da boneca de papel. Se diz ser navio ou a estrela rutilante, o resultado é idêntico, na distância incomensurável entre a realidade destas imagens e a do homem, humanamente falando, que foi. É pela falta que nos comovemos, é pela falta que os poemas se humanizam, nas suas paisagens tecnológicas, é pela falta que a própria noção de sujeito ganha alma, a falta de pai e mãe. Haverá falta maior do que a manifesta no poema “Ode à infância”? Um fantasma emerge das águas, flutua, os cabelos derramados, como Ofélia, quase ouvimos o sujeito lírico chamar por ela, a Máscara do desejo quase lhe cai da cara, mas a ausência é um silêncio lancinante – falta a palavra mãe. Faltam aliás quaisquer membros de família.

Se em Herberto Helder temos uma mãe plural, quer dizer, um poeta com número indeterminado de mães, em Manuel de Castro o termo falta. Nem uma nem muitas, a palavra é uma ausência. Pai também é termo em falta, com duas ou três exceções, uma já vista acima. A segunda exceção, generalizável a pai e mãe de todos os da sua geração, em “Equidistante e neutro”: O puzzle vai ser reconstituído/ com as caveiras dos nossos pais / a bruma, e a dissolução dos astros.

Guardo um companheiro que se não destina a consumo público remata Herberto Helder. Isto vai bem: há uma quantidade de cadáveres precoces. Um dia destes, acordamos cobertos de cadáveres. Teremos de encontrar o cheiro das rosas brancas para conseguir respirar, se é que vamos querer respirar. Uma das expressões cultivadas asperamente pelo Manuel de Castro era: Está podre! Pois está, digo eu. E isto já se passa numa eternidade que não existe.

Este texto do Notícia foi recuperado parcialmente em Photomaton & Vox. Sem marcas biográficas, sem nomes de ninguém, como se Herberto Helder tivesse cometido autofagia, assumindo como dele o que atribuiu a Manuel, ou como se o que pertence a Manuel pertencesse a toda a geração, deles e nossa, a geração das antropofagias, das dentadas e da falta de país – de pais, queria dizer.



NOTAS

1. António Barahona, Memória do Café Gelo. Em: www.culturafnac.pt/memoria-do-cafe-gelo/

2. “Eu que apareci acidentalmente vivo”, texto de HH e colagem de Carlos Fernandes. Notícia, Luanda, nº 615, 18 de setembro de 1971.

3. Mauro Jorge Santos, “Portugal e Manuel de Castro: a viagem interior ao além-mar e além-real”. Agulha Revista de Cultura, n.º 34, Fortaleza, S. Paulo, 2003. V. www.revista.agulha.nom.br/ag34castro.htm. 

4. José-Luís Ferreira (textos) e Henrique Gabriel (imagens) publicam o blogue “Hormonas para Sísifo”, bem como ebooks homónimos. José-Luís Ferreira lembra, no blogue, a sua parceria nesta rubrica, cujo título faz reviver na internet como homenagem a Manuel de Castro. www.hgabriel.net/hormonasparasisifo (março, 2014).

5. Joana Emídio Marques, “A segunda vida de Manuel de Castro, uma estrela rutilante na poesia portuguesa”. Diário de Notícias, 8 de fevereiro de 2014.

6. Luiz Pacheco, “Os poetas sonegados”. Em Literatura comestível. Lisboa, Editorial Estampa, 1972.

7. Maria Estela Guedes, A obra ao rubro de Herberto Helder. São Paulo, Editora Escrituras, 2010.




MARIA ESTELA GUEDES (Portugal, 1947). Dramaturga, poeta e ensaísta. Licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem vários títulos de poesia publicados. As suas obras de referência são Herberto Helder, Poeta Obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979) e A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010). Apresenta uma vertente científica, devida a ter sido funcionária do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa. Dirige a página web Triplov.




FIRMINO SALDANHA (Brasil, 1906-1985). Pintor, arquiteto. Cursou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes/Enba, em 1931, no Rio de Janeiro. Na década de 1940, inicia-se como autodidata em pintura. Em 1957, é escolhido, juntamente com Candido Portinari, para concorrer aos prêmios Guggenheim e participar da exposição realizada em Paris. Além disso, integra a comissão encarregada de projetar a Cidade Universitária, no Rio de Janeiro, ao lado de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy; atua como presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil/IAB; e realiza, dentre outros, o mural do Banco Nacional – Palácio do Planalto, em Brasília. A seu respeito disse Flávio de Aquino: Nas telas de Saldanha sentimos formas, linhas e cores se movimentando, criando contraste, se ajustando ou se opondo umas às outras, como se nascessem do mesmo ritmo, obedientes à composição geral, com seus elementos fortemente ligados através de uma coerência formal, de onde emerge a mensagem emocional com limpidez e transparência. Por sua vez, observou Joaquim Tenreiro que Firmino foi um pintor filiado aos princípios plásticos de Braque. Sentiu-lhe intensamente a influência, especialmente no formalismo, na esquematização, na composição da obra. Assim foi durante algum tempo, e nisto está uma força e uma constância, que fazem Saldanha trabalhar continuamente até chegar à atual fase, já livre daquela influência, evidenciando sempre, porém, uma forte consciência de pintor. Firmino Saldanha é o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 09 – A IDEIA  REVISTA DE CULTURA LIBERTÁRIA (PORTUGAL)

Artista convidado:  Firmino Saldanha(Brasil, 1906-1985)

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