terça-feira, 26 de janeiro de 2021

ESCRITURA CONQUISTADA | Enrique Molina (Argentina, 1910-1996)

  

OS COSTUMES ERRANTES DE ENRIQUE MOLINA

 


Todas as salas estão abertas para que entre o mar. Certa vez, ao escrever sobre uma tela de Picasso, observou Milan Kundera que ao desfrutar dessa obra o observador não apenas participa de sua intimidade como tem a nítida certeza de que o artista esteve ali, que conviveu intimamente com cada detalhe em cena. Enrique Molina, em um de seus poemas, destaca “as noites contaminadas pela memória de outras noites”. Este poeta sempre foi um hóspede invulgar das páginas mais selvagens da aventura humana. Ao descrever lugares invadidos pela intempérie, deixou-se ele mesmo tomar pela magia radiante da própria fluidez do espaço, em uma espécie de conquista do instinto, de linguagem impulsionada pela entrega de seus códices, pela constância com que expande os limites de sua percepção.

Talvez a palavra mais cara a Enrique Molina seja relâmpago, mas no sentido de um resplendor que antes de tudo ilumina a si mesmo, ou se deixa iluminar pelo modo como é recebida sua descarga elétrica no lombo da paisagem. Esse estado súbito e perene de iluminação que somente o instante nos permite. Este é o relâmpago da poesia de Molina. Um relâmpago que em cada poema nos lembra que a vida não suporta esperança ou hábito. Traduzindo, se é preciso, eu diria que a poesia não tem significado algum para este poeta se não pode ser vivida, se o leitor não pode de algum modo se reconhecer nela e se ela, como uma paisagem habitada pela sensualidade da própria existência, não pode expressar sua vida mais íntima. A vida de quem a criou como uma habitação pronta na medida em que se deixa penetrar.

Esta passagem de uma entrevista concedida a Carlos Bedoya dá-nos a medida essencial da vida que levou Enrique Molina:

 

Levo comigo um sentido de errância permanente, e viajar em um barco é algo bem distinto de deslocar-se em avião ou trem. Tem uma coisa mais cerimonial, a chegada, a partida, o cabo, o rebocador. Primeiro eu trabalhei na coberta, e logo como timoneiro em um barco mercante. O oceano é todo um espetáculo, especialmente o trópico. Sempre me seduziram os peixes voadores, sobretudo agora quando estão desaparecendo os pássaros. Sou advogado, porém somente 20 ou 30 anos após o término dos estudos é que me preocupei em obter o título, o que me obrigou a uma série de tolices, inclusive valer-me de testemunhas para demonstrar que eu era eu. [1]

 

Após esta breve e cintilante cascata de dados biográficos, voltamos à grande fome do poeta, a de uma instância mágica em que a poesia venha a ser “a versão instantânea do pensamento e do mundo interior mais profundo”. O sentido de errância com o qual nos deparamos ao ler Enrique Molina adverte inicialmente que esta é uma condição permanente, que não se trata de um meio à procura de um fim, de um jogo de metas ou um curso módico de estranhamento. A caminhada existencial que propõe não se limita ao destino, antes evoca uma atmosfera de afinidades surpreendentes que vão descortinando um mapa visceral de ambientes tangíveis e vertiginosos. Sua viagem não é a de um trânsfuga, mas sim a de alguém com uma profunda ligação com a terra, com a mais inabalável consciência de que o homem é parte do mundo, e não apenas de uma fatia do mundo.

Uma vez, entrevistado, Molina mencionou alguns poetas hispano-americanos de sua admiração. Graças às suas viagens marítimas, por vezes aportou em lugares onde lhe foi possível conviver com os peruanos César Moro (1903-1956) e Javier Sologuren (1921-2004), e rápidos contatos com o chileno Braulio Arenas (1913-1988). No Brasil, Molina encontrou em Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002) um bom amigo. Vejamos uma lembrança dessa amizade segundo relato do mexicano Carlos Montemayor (1947-2010):

 

Graças a Fernando Ferreira conheci não apenas poetas e ensaístas brasileiros, como também outros grandes poetas de nosso continente. Em 1973, Fernando me pediu que intervisse para que algumas instituições convidassem a Enrique Molina para dar leituras de poesia a fim de que conhecesse o México e contasse com mínimos recursos econômicos que facilitassem sua estância. Enrique esteve uma temporada no México e se hospedou em vários pequenos hotéis da rua Luis Moya, próximo da Alameda. Em certa ocasião, em minha casa, eu lhe ofereci uma taça de sotol. [2] Ele gostou muito do sabor defumado e doce, algo fresco, dessa bebida. Eu lhe presenteei uma garrafa, que dias atrás eu havia recebido de Chihuahua, da qual na mesma tarde ele consumiu mais da metade. Quando Fernando Ferreira chegou ao México e se reuniu conosco, Enrique explicou as virtudes do sotol comentando que graças a essa bebida havia sentido a importância interior da passagem do trem em Todas as tardes, um de meus primeiros contos. Durante muitos anos, a partir dessa tarde, Fernando me pedia em suas cartas que lhe enviasse sotol apenas para ele, porque também queria, como nós, ver passar o trem pelas montanhas. [3]

 

Molina teve um único livro publicado no Brasil, Uma sombra onde sonha Camila O’Gorman (em 1986 pela Editora Guanabara, traduzido por Sônia Régis). Essencialmente poeta, é quando menos curioso que sua entrada em nosso país tenha se dado através do único romance que escreveu. Mesmo contando com sua adaptação cinematográfica, não houve a mínima atenção a este imenso poeta da parte de cá desta América Ibérica desarticulada entre si por algum motivo mais crível do que a comum justificativa do idioma. Seguramente Molina sabia que não adentrara o território da linguagem narrativa senão como um desbravador daquele tema em particular ⎼ os dilemas do amor em meio a uma ardileza de preconceitos morais e religiosos ⎼, experiência que mais enriqueceu a sua poesia do que qualquer pretensão romanesca.

É preciso entender que a lírica em Enrique Molina é uma ruptura com a dissensão entre vida e obra. O mundo poético de que se alimenta é o da existência humana, em seu misto de demência e frenesi, em suas inesgotáveis formas de paixão e sacrilégio, em seus pedidos de socorro e o extravio de essências em orgias de toda ordem, a natureza diabolicamente se misturando ao ponto insaciável de um feitiço que a desvende. Não há Enrique Molina além ou aquém dessa indolência do horizonte. E é tão lindo lê-lo assim, porque se insere naquele ambiente que mencionava Kundera acerca de Picasso. Decerto que há outra dissensão delicada na criação artística, quando adocicamos o sentido de sinceridade, ajustando seu diapasão para atender às diversas formas de confessionalismo. Em definitivo, a arte não é o lugar de uma confissão.

Enrique Molina foi um navegante de si mesmo, justamente ao buscar em diversas instâncias uma forma de reconhecer seu espírito e condicioná-lo a uma atuação que pudesse romper as oclusas da existência humana, em brasa viva, testemunhando as perspectivas que iam sendo priorizadas pela própria vida. Sua rota, descrita em seu espírito, sempre foi o nomadismo. Declarou uma profunda afeição pelo surrealismo, em especial no que ele compreendia como um “humanismo poético”. Sua forma única de ortodoxia se chamava abismo, entrega, viver. Seu convívio com surrealistas, em especial em seu país, a vida compartilhada com o grupo em torno de Aldo Pellegrini (1903-1973), ele próprio sendo editor de uma das mais importantes revistas dedicadas ao surrealismo em toda a América, tudo isto ⎼ há mais, há mais ⎼ alimenta certa fatia da história que deseja ampliar seus protagonistas. E aqui havendo mais mencionamos sua relação com o Surrealismo, que não foi a de filiação, mas antes a de uma íntima afinidade. A mesma afinidade que gerou certo lapso da historiografia ao registrar a publicação de Qué (Buenos Aires, 1928-1930) como a primeira revista surrealista do continente. Mesmo que o próprio Aldo Pellegrini, seu editor, tenha posteriormente declarado que os poetas em torno da revista formavam “uma espécie de fraternidade surrealista, que realizava experiências de escrituras automáticas”, como já tive oportunidade de esclarecer em outro momento, não houve o estabelecimento de um grupo surrealista e nem a revista se apresentou como uma publicação surrealista. Por mais estreitas que fossem as afinidades. Somente em 1952, quando se define um forte ciclo de amizades entre Pellegrini, Molina, Julio Llinás, Carlos Latorre, Francisco Madariaga e Juan Antonio Vasco é que o Surrealismo alcança uma relativa adesão por parte dos poetas argentinos. Ao final deste ano Molina dirige a revista A partir de cero. No ano seguinte será a vez de Pellegrini dirigir outra revista Letra y línea. O próprio Pellegrini chega então a observar que somente ele, Molina e Carlos Latorre se declaram surrealistas.


Em conversa com Marco Antonio Campos, deixou bem claro Enrique Molina sua afinidade com o Surrealismo, ao dizer: “O que trato é de seguir fiel à ética do surrealismo, muito mais do que à sua expressão literária. Nisto não mudei: poesia, vida, amor e liberdade me acompanham sempre. Porém no surrealismo não há, por exemplo, uma visão da paisagem, exceto em Aimé Césaire, um grande surrealista nascido no Caribe.” [4] Molina já havia publicado surrealistas como Leonora Carrington, Antonin Artaud e Georges Schehadé, além de haver traduzido André Breton (O amor louco) e Blaise Cendrars (Prosa de um transiberiano). Tinha, portanto, uma visão bem íntima do Surrealismo, suas tensões e transbordamentos, e sempre afirmou dedicação a uma ética surrealista.

A obra poética de Enrique Molina está composta pelos seguintes títulos: Las cosas y el delirio (1941), Pasiones terrestres (1946), Costumbres errantes o la redondez de la tierra (1951), Amantes antípodas (1961), Fuego libre (1962), Las bellas furias (1966), Monzón Napalm (1968), Los últimos soles (1980), El ala de la gaviota (1989), Hacía una isla incierta (1992) e a edição póstuma de El adiós (1997). Uma parcela da crítica ⎼ vale referir que é ínfima a fortuna crítica sobre este poeta ⎼ situa os livros de 1951 e 1961 como seus dois mais altos momentos surrealistas. Estou em completo desacordo com tal entendimento, porque reduz o ambiente, em termos de linguagem poética, em que possa atuar o Surrealismo. Não há limites estéticos no Surrealismo e uma de suas mais altas provocações radica justamente no entendimento de que é possível invadir toda e qualquer forma de hábito da linguagem e ampliar seus motivos interiores.

O estranhamento quando adentramos a poética de Enrique Molina, sob as luzes de uma leitura surrealista, é que não nos deparamos com as lancinantes imagens que põem em conflito os ambientes cosmopolita e onírico. A poética de Enrique Molina não se preocupa em negar o que somos, mas antes em afirmar tal condição, a despeito do que reconheçamos ou não em nossa intimidade. Em face disto, a paisagem em seu poema é a de uma infestação de sentidos e não o deserto citadino. E que tenha alcançado essa carícia elétrica de frondosidade da alma, fundindo-a com a própria paisagem do inóspito, do inabitável, de um mundo repleto de violência natural, dos mitos locais, do calor contagiante dos sinais indecifráveis, este é o reino da beleza que tem buscado a poesia através de Enrique Molina. O mar adentrando as salas de sua entrega à vida sem fronteiras.

Que recordemos, na leitura de poemas de Enrique Molina, outros poetas, de que são exemplos mais afins Saint-John Perse e Aimé Césaire, é uma descoberta feliz de mundos que em sua vastidão não se isolam, que agem como feitiços que se multiplicam na medida em que são identificados. Molina buscou o que ele tão bem definiu, desde o título, no poema “Linguagem natural”, o amor à vida, sem nenhuma vacilação, sob todos os riscos de derivar ou apodrecer, alheio à chance de converter-se em mito ou demônio, apenas viver. Eis tudo o que fez com uma intensidade invejável.

Enrique Molina nasceu em 1910 e morreu em 1996.

 

NOTAS

1. “Conversando com Enrique Molina”. Carlos Bedoya. El Mundo Semanal. Medellín: 31/10/1981.

2. Sotol é uma bebida alcoólica mexicana, destilada de uma planta de nome Dasylirion wheeleri, também conhecida como sereque. [N.T.]

3. La Jornada. México: 31/07/2002. A entrevista completa se encontra ao final desta edição.

4. “Conversa com Enrique Molina”. Marco Antonio Campos. Jornal Sábado. México: 17/04/1993. 

André Coyné & Enrique Molina. Buenos Aires, 1966


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Escritura Conquistada – Poesía Hispanoamericana reúne ensayos, entrevistas, encuestas y prólogos de libros firmados por Floriano Martins, además de muestra parcial de su correspondencia pasiva.

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- Escritura Conquistada - Poesía Hispanoamericana -

Floriano Martins

ARC Edições | Agulha Revista de Cultura

Fortaleza CE Brasil 2021



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