quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ESCRITURA CONQUISTADA | Rolando Toro (Chile, 1924-2010)

  

A POESIA DE ROLANDO TORO

 


No início de 1996 conversei ao telefone com Rolando Toro, que acabava de chegar a Fortaleza. Vinha do México, mais precisamente de Oaxaca, onde havia se encontrado com Ludwig Zeller, poeta chileno com quem já me correspondia há alguns anos. Marcamos logo um encontro, onde trocamos alguns livros e conversamos sobre Zeller, poesia e outros assuntos. Surpreendeu-me que fosse Rolando Toro um poeta, pois o conhecia tão-somente através de sua concepção de uma terapia que, através da música, da dança e do canto, propunha uma integração mútua entre as pessoas.

Surpresa feliz a de estar ali com o criador da Biodança, que me surgia com seus livros de poemas, publicados há poucos meses, mais de 400 páginas de versos, um acúmulo da escrita em um tempo incontável. Em 1992 havia publicado um primeiro livro, que logo tratou de me ofertar. Nossos encontros – não somente a leitura de seus versos – se tornaram mais constantes. A partir dali todos os anos vem à minha casa, onde erguemos o vinho da amizade e da poesia.

Logo nas primeiras de nossas conversas lhe propus uma entrevista. “Às vezes, a poesia é um réquiem, uma oração ou um uivo, porém sempre é um testemunho do que somos.” Foram suas palavras conclusivas de nosso encontro já registrado em livro.

Tempos depois, abro ao acaso as páginas de um livro de María Zambrano, onde refere-se à presença da verdade. Segundo a filósofa espanhola, a verdade nos acompanha independente de que a percebamos ou não. Por consequência, assim como no caso da verdade, há uma presença originária da poesia em cada um de nós. Em nenhum dos dois aspectos o homem suportaria uma ideia contrária. Algo nele refuta a invenção que não trata a si mesma como um achado, a revelação de uma trama já existente. E nenhuma revelação subsiste a si mesma se não é verdadeira.

Ao lermos a poesia de Rolando Toro presenciamos a verdade latente de sua revelação. Não a vulnerável tessitura de um dilema pessoal, no sentido de uma voracidade do ego, mas antes um desnudamento da essência do ser, de maneira a nos facultar argumentos para que a verdade não se interrompa. Sua busca de uma clareza – ou claridade – me parece muito íntima da aventura de poetas como Juan Sánchez Peláez e René Char. Mas qual seria essa verdade?

Uma vez mais recorro a María Zambrano, ao nos lembrar que o conhecimento tem sua raiz no desconhecido, e que este não passa de algo ocultado, portanto, ainda não revelado. Não nos inventamos, mas sim nos descobrimos, nos revelamos a nós mesmos. Por mais recôndita, há uma natureza comum que nos une a todos. Não importa que a chamemos de elo invisível ou Paraíso Perdido. Esta tem sido a verdade que palpita nos versos de Rolando Toro, ao acentuar paradoxos e arritmias do homem em relação a si mesmo.

Sendo o que se revela e não o que se vislumbra, ao poeta caberia melhor a qualificação de auditivo do que de visionário, como propôs a seu tempo André Breton. Daí a identificação que traça a poesia de Rolando Toro entre termos como “música”, “abismo”, “origem”. Tudo em sua poesia nos é revelado – e não vislumbrado – através da intensidade e do compasso de sua existência.

Ao nos dizer: “o poema vem do desconhecido”, ou seja, “algo que está presente na total ausência”, não faz senão evocar uma célebre discussão entre o destino do poeta e o destino da poesia. O poeta revela o sentido das coisas ou apenas converte uma coisa em outra?

As imagens desatadas por um poeta são a evidência de sua relação com o mundo. Atestam sacrifícios, dissidências, tanto quanto fraudes, colapsos. As reiterações são tão essenciais quanto as súbitas conversões. Mesmo quando nega a si mesmo o homem não pode ir além do que percebe acerca de seu viver. As imagens, portanto, conduzem a um entendimento do que se passa dentro e fora desta figura central que nos representa a todos.

Os poemas de Rolando Toro contribuem para a decifração deste enigma com a singularidade exigida a todo grande poeta. A este exercício corresponde um risco primário: a retórica de todo aparato contra a poesia. Na aparente simpleza de sua escrita, a exemplo de García Lorca, radica a complexidade de sua visão de mundo.

Os riscos são os irrefutáveis argumentos da verdade. Através de sua poesia, Rolando Toro questiona o efeito anestésico que uma realidade falseada pode induzir: uma ideia equivocada do hábito ou uma obsessão pelo sempre novo. Seus versos, embora remetam às inúmeras contingências da percepção, concentram-se em um aspecto que considero fundamental: a identificação do humano com a fecundação, retomando um aspecto mitológico que vem caindo em esquecimento.

Neste sentido, Deméter (“mãe da cevada”) assume uma representação central na poesia de Rolando Toro. Tanto por sua reação diante do rapto da filha Perséfone, quanto pelo entendimento de que há um bem comum que se chama vida. Um dedo estalado aqui se refere tanto a uma marcação de dança quanto à contagem regressiva de uma explosão atômica. Indagação chave: o primeiro homem em nada se distingue do último?

A poesia de Rolando Toro perfura a superfície do hábito à procura de um jato de luz cuja radiação nos torne ressurrectos de nós mesmos. Sua linhagem é a do cântico, a da propagação de uma ideia a partir da plenitude de sua imagem. Um poeta que revela a todos o que revela em si.

Não quero encerrar estas notas sem referir-me ao fato de que a poesia busca identificação com signos naturais e não a apropriação de territórios que aparentemente não percebem sua integridade diante da existência humana. Não se trata de dar carta aberta a todos os fazedores de versos. A poesia os dispensa, inclusive a carta.

Meus encontros com Rolando Toro – além da leitura incessante de seus versos – me levam a uma constatação mínima: de que a visão está implícita na chama, essa manifestação da essência do fogo. Porém o que somos, o que nos toca por revelar, é o que nos dita nosso ouvido interior. Assim, o que temos diante de nós é a revelação de uma verdade, justamente aquela verdade intrínseca de que nos fala Zambrano. Não se trata, claro está, de uma retórica, mas, sobretudo, de uma essencialidade da revelação, aquele estado de descoberta íntima em que o homem se compreende como um todo, independente da extensão de sua errância ulterior.

É desta verdade essencial que se nutre a poesia, aqui em particular a poesia de Rolando Toro. Pode-se dizer que este poeta alcança uma sutil relação entre a percepção e sua expressão. Não entende a palavra como mero refúgio da expressão, mas antes como seu espaço pleno, implícito, de revelação. É esta a poesia que temos diante de nós: uma afirmação do sentimento humano, sua legitimação e abordagem essencial da paixão. A poesia de Rolando Toro não se refugia na palavra. Sua paixão transcende toda retórica. 

Rolando Toro e FM. Fortaleza, 1996

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Escritura Conquistada – Poesía Hispanoamericana reúne ensayos, entrevistas, encuestas y prólogos de libros firmados por Floriano Martins, además de muestra parcial de su correspondencia pasiva.

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 - Escritura Conquistada - Poesía Hispanoamericana -

Floriano Martins

ARC Edições | Agulha Revista de Cultura

Fortaleza CE Brasil 2021



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