quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

ESCRITURA CONQUISTADA | Gonzalo Rojas (Chile, 1917-2011)

 

A POESIA DE GONZALO ROJAS

 

Tudo pode chegar a ser Um. Isto me disse sempre a poesia.

GONZALO ROJAS

 

Antes de tudo: buscar o ritmo singular de cada instância do ser, tocar o pulso das coisas em sua intimidade, abrir-se à respiração de cada elemento. Respirar e seguir respirando, arrebatado pelo latejo das palavras, envolto pela esfera de seus enigmas e significações. Abrir-se ao contágio inigualável das imagens, deixar-se atrair pelas dobras sinuosas de suas visões, a substância turbulenta de seu próprio sentido. Agora podemos falar em poesia, no fulgor e mistério de suas formas. No “zumbido do Princípio”, segundo nos indica Gonzalo Rojas. A poesia é o grande pulmão do ser e do tempo. A profundíssima claridade de todas as coisas é definida por sua respiração. Tudo é ritmo, luz divina do som que nos toca ao tocarmos a essência de todos os sentidos. A poesia do chileno Gonzalo Rojas (1917-2011) nos remete a este sopro gozoso da origem de todas as coisas, diálogo com o princípio e os enigmas vorazes do Logos. Rojas é uma dessas vozes poéticas forjadas no cume do abismo, incansável “guardião das metamorfoses”, aqui recorrendo a uma definição de Elias Canetti acerca do poeta.

Como ele próprio nos dirá, “pertenço à geração literária chilena de 1938”, ressaltando que distingue-se esse momento “por uma maior consciência crítica da linguagem e certo projeto de diálogo com o mundo talvez mais coerente e lúcido, ainda que sem dúvida menos criador que o dos grandes vulcões da década de vinte: Huidobro, de Rokha, Neruda e – um pouco antes – la Mistral[1]. A estes somaríamos Rosamel del Valle, Humberto Díaz-Casanueva, Enrique Gómez-Correa, seguidos de outros como Ludwig Zeller, Enrique Lihn, Pedro Lastra, Oscar Hahn, que nos dão conta da consubstanciação de uma densa tradição poética.

Vinculados à geração de 38, especificamente, surgiram dois importantes momentos da literatura chilena: os grupos Angurrientos e Mandrágora. O primeiro, em grande parte formado por prosadores, deixou-se influenciar talvez excessivamente pelo marxismo, incorrendo naqueles já conhecidos equívocos de uma panfletização da arte. No entanto, deu à literatura chilena dois grandes autores: Juan Emar – embora seu nome tenha sido já vinculado à geração anterior – e María Luisa Bombal. Quanto ao segundo, Mandrágora, no que pese o registro de um surrealismo ortodoxo – que acabaria levando Rojas a desvincular-se de seus integrantes –, devemos ter em conta que buscaram a todo custo romper com a tradição reinante, procurando fazer com que “o heterogêneo irrompesse com toda sua força no presente, querendo assim torcer seu curso em direções inesperadas”, como nos lembra o crítico Marcelo Coddou. De qualquer maneira, tanto é válido notar que a geração de 38 produziu um dos momentos de maior polêmica da literatura chilena, quanto afirmar que Gonzalo Rojas, ultrapassando os limites definidos pela geração, tornou-se não simplesmente seu nome mais mencionado internacionalmente mas sobretudo um dos mais altos representantes da tradição poética de seu país, de cujas origens ecoam ainda hoje as vozes de Pablo de Rokha e Vicente Huidobro.

Desde a publicação de Oscuro (1977), quando ali traçou três linhas aparentemente de ordem temática – vertentes da escrita, essenciais porém não mais que vertentes –, reconheceu certa parcela da crítica que Gonzalo Rojas estava propondo uma tríplice leitura de sua poesia, e a isto apegou-se como um corpo carente de história. Ao organizar outros livros seus, uma vez mais ali nos encontramos diante do 3, número que representa a unidade e não uma sequência de natureza temática. Há um tema único e chama-se Soma, Totalidade, Um. E não define-se exatamente como tema, visto que busca algo além, uma instância metafísica que reconheça o homem em seu todo. A poesia não fraciona realidades.

O curioso é que uma poesia intrinsecamente marcada pela circularidade como o é a de Gonzalo Rojas seja confundida com o lugar comum das circunstâncias temáticas. O relâmpago de que nos fala esta poesia não é um simples recurso metafórico. Trata-se do fenômeno físico em si, ou seja, não de sua ideia de velocidade e destruição, mas sim do efeito real da ação de um ritmo e sua ambientação em nossa vida comum. Trata-se do inesperado, assim como da relação entre visível e invisível.

É curioso que tratemos o mundo no sentido de um progresso linear. Agimos por oscilação e não por progressão rítmica. Quando desaprendemos certas técnicas atestamos o jogo de intermitências de nosso conhecimento. Nos esgotamos em nós mesmos e não em uma ideia linear do tempo. E a partir desse constante esvair-se é que nos reafirmamos. Já vivemos em sociedades em piores e melhores condições que a atual. Então que fique bem claro: a noção de circularidade não pertence à pós-modernidade. Portanto, a palavra não quer exatamente dizer, no sentido de uma retórica que determine a existência de uma época, mas simplesmente dar-se como prova do espírito, como presença do ser. As palavras são o alimento terrestre do poeta. São a raiz de todo entendimento. Mistério da origem, ao mesmo tempo em que origem do mistério. Comunicação sem receitas, linguagem do sagrado, alheia ao latejo esquizoide dos ideais.

Mas, e a realidade por detrás de cada palavra? Como podemos seguir chamando de realidade esse convívio estreito com a contemplação intelectual, essa aceitação de um relicário escolástico, alheio ao relâmpago das sensações, alheio ao próprio sentido de uma recorrência artificiosa da imagem poética? Já disse: ao desfazer-se o corpo não busca senão uma melhor definição de seu tronco. Me parece que esta é a chave da palavra poética. Decifrando-se a si mesmo o poeta desvela a palavra com que se expõe e permite decifrar-se em outro, por outro, sendo ainda a trilha que leva a caminho daquele outro que não se mostrara a si mesmo até então.

Podemos falar de uma erótica, uma política ou uma metafísica ao abordarmos a poesia de Gonzalo Rojas? Claro, sempre podemos ir buscar classificações em todas as atividades humanas. Mas não podemos esquecer que o tratamento a ser dado a tais abordagens deverá funcionar como se tratássemos de letras impressas no relâmpago, visto que não configuram um sistema poético, ainda que relacionado com um sistema visionário usualmente atribuído à sua poesia. A própria circularidade em que age a poesia de Gonzalo Rojas denuncia a arbitrariedade desses enfoques. Seria algo da mesma ordem que dissecar a tríade “amor, poesia e liberdade”, tão cara ao Surrealismo, buscando ali apenas uma avaliação de categorias temáticas. Tanto em Rojas quanto no Surrealismo importam menos os apontamentos sistêmicos do que o exercício de alcançar a respiração do efêmero, essa luta empreendida pelo homem para reconquistar sua própria liberdade de ser. Age a poesia como uma entrada no caos e sua consequente reorganização do tempo e do espaço, condição única para que aprendamos a conviver com as diferenças, por sua vez fonte inesgotável da multiplicidade da existência. Se observarmos um pouco à nossa volta, lidamos com os horrores máximos da anulação dos contrários, artifício sagaz dos mecanismos publicitários postos a serviço de uma grande indústria de sacrifício da identidade do ser. Aqui sim, o mundo restringe-se a categorias falseadas: uma erótica, uma política, uma metafísica.

O surpreendente em Rojas é o sopro originário da poesia em si, o estremecimento do verbo em sua origem. Não é em vão que seu primeiro livro se chame La miseria del hombre (1948), menos ainda que tenha escrito um belíssimo poema dedicado a William Blake (“Trotando a Blake”). Igualmente visionários, é curioso observar que não se pode verificar um desdobramento estético linear na obra destes dois poetas. Cada um preencheu o tempo em que agiu com o oxigênio de sua visão singular. Seguiram em seu exercício respiratório, mas com uma galáxia já fundamentada no primeiro sopro de sua poesia.

Deteve-se Blake a traçar uma filosofia contemporânea, observando seus aspectos vinculados aos prazeres do amor, à revolução social e a uma epopeia cósmica. Irmanam-se Blake e Rojas no arbítrio do destino – basta pensar que Yeats afirmava que Blake havia anunciado a “religião da arte”, somando a isto a defesa que Rojas faz da poesia como canto, território do sagrado, raiz profundíssima do mistério. Enquanto um pensava em sua poesia como “cantos de inocência e de experiência”, o outro centrava seu enfoque em torno da “miséria do homem”. Surgiram, portanto, de uma mesma ideia da poesia, de sua ação. Em ambos, o que Russel Cluff observa com sendo característico de Rojas: “uma indagação muito profunda de múltiplas ambiguidades ou anomalias da vida humana”. Ao seguir o curso das profecias, Blake destinou a elas um tratamento de natureza histórica, ao passo que Rojas percorreu a trilha de uma metafísica do instante. Em ambos a rejeição ao religare como instituição.

Claro, a história os distancia. O próprio Rojas refere-se hoje ao “excessivo por ignição necessária” de seu La miseria del hombre. As partituras extensas – segundo ele próprio – de seu primeiro livro correspondem a uma cifra concentrada na poesia inicial de Blake, talvez interferência da torrente estética do instante em que a história os recebia. Fundamentaram uma voz única, cada um a seu tempo, plasmada por um sentido de decifração e questionamento dos enigmas dilacerantes de cada época. Consciência do ser a partir de sua respiração original. Se um cultivou a parábola, o outro buscou a abordagem agônica dos contrastes. Diz o que diz e busca em seu dizer um ritmo que nos sintonize, ao dilacerar o entendimento em busca de sua fração motriz, “para ser e mais ser”, como sugere um poema de Rojas. Tudo nos leva ao Surrealismo, e a crítica deteve-se com insistência em considerar sempre os anos iniciais de Rojas vinculados ao grupo Mandrágora.

Se em André Breton vamos buscar uma configuração do enigma, a necessidade de encarnação do abismo, ali estamos também com Rojas em seus desenhos das tábuas terríveis da dissolução do ser. Uma vez mais aqueles parâmetros iniciais em torno da poesia de Rojas são entendidos aqui apenas como fatias de uma linguagem que somente se realiza como testemunho da inocência original. Ao dedicar um poema a Breton (“A la salud de André Breton”), salienta uma vez mais que a poesia é ritmo, instância verbal destinada à tradução do ser, chave do nascimento. Segue importando a conduta do poeta em relação à linguagem. Breton falava em uma magia verbal e não creio ser outra a busca de uma respiração fecundante que caracteriza a poesia de Gonzalo Rojas. Ambos desconsideram a obsessão pela novidade. Agiram turbulentos na turbulência. Se em Breton o sentido fluido das correspondências não constitui exatamente um pacto verbal, inclina-se Rojas por uma ideia do que Rubén Darío já chamava de palavra viva, e a desfia a partir de uma das mais ricas tradições poéticas da América Latina. Buscar a verdade como consciência da mudança, e não a partir de sua cristalização em nome de um ideal.

Em um poema dedicado a José Lezama Lima (“Y nacer es aquí una fiesta innombrable”) refere-se ao “pássaro verbal” que voa na língua do poeta cubano. Conduz-nos ao sentido de uma respiração através das palavras, que não se distancia da formulação de um logos da imaginação expressa por Lezama Lima. Se um purifica sua realidade a partir da gravitação em torno do movimento, o outro não busca senão a configuração do múltiplo a partir de sua imobilidade física. Em ambos a potencialidade poética rejeita a encarnação retórica. O fundamental segue sendo que a imagem é reflexo de si mesma. Não conta o decantado hermetismo de Lezama Lima, não muito distante, como recurso estilístico, da aparente simplicidade de Gonzalo Rojas, ou seja: termos imprecisos baseados em utilizações incorretas dos mesmos. Interessa-nos a metamorfose, a imagem que cada um cria a partir de seu desterro, a visão da realidade como deformidade que se pretende conciliada a partir de uma existência comum. Busca do impulso do conhecimento, ao mesmo tempo em que consciência de uma ressurreição irrisória.

O número é 3. Nisto não erra a crítica. E com base nele é que recorri a Blake, Breton, Lezama. Aproximações singulares de uma plasmação do verbo. Não lhes interessa senão o zumbido do caos. A partir dele a respiração do essencial no ser. Na insistência de uma tríade, igual diálogo se dá com Huidobro, Quevedo, Celan. Também com Hölderlin, Pound, Vallejo. Vozes vindas na ventania da poesia, torrenciais e contidas, porém jamais vozerio sem o ouro da reflexão. Vertentes que agem como “cordas de fundamento”, segundo o próprio Rojas, fundamentos de uma unidade “que faz este pensamento que respiro, que vivo, que sonho, que me totaliza poeticamente e, ao mesmo tempo, me unifica”. Tudo é ar: larva que nos conduz à cidade de nossos assombros, êxtase, caudaloso rio, lâmpada do pensamento. Vertentes iluminadas de sua respiração múltipla que vislumbra e toca a unidade, dimensão do ritmo que flui, arde e diz, majestade do canto, espinhaço da poesia. As árvores de seu “Torreão do Renegado” que são as letras que lhe ditam a poesia e as emanações de sua existência. Estamos para o abismo. Não fia outra coisa senão a torrente do Absoluto a poesia em Gonzalo Rojas. Age. É o princípio do verbo. Não encontrei melhor definição a seu respeito do que o achado de Marcelo Coddou: “poética da poesia ativa”. É esta sua razão de ser, o testemunho de sua inocência original: o potens da existência humana convertido em linguagem poética. 



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Escritura Conquistada – Poesía Hispanoamericana reúne ensayos, entrevistas, encuestas y prólogos de libros firmados por Floriano Martins, además de muestra parcial de su correspondencia pasiva.

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 - Escritura Conquistada - Poesía Hispanoamericana -

Floriano Martins

ARC Edições | Agulha Revista de Cultura

Fortaleza CE Brasil 2021




[1] Fragmento inicial de uma introdução a uma leitura de poesia realizada por Gonzalo Rojas na Universidade Livre de Berlim, em 28/06/88, texto posteriormente incluído como prólogo de seu livro Materia de testamento (1988).

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